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segunda-feira, 2 de março de 2015

A Mulher da Noite


Chovia torrencialmente naquela noite escura de sábado.
Ele queria uma morena jambo, uma de grandes proporções. Não queria loiras, ninfetas, lolitas ou universitárias, ele desejava uma morena. E faria de tudo para possuir uma. Tinha de ser uma morena.
Rodou com carro por ruas, becos e avenidas da parte velha da cidade. Sabia que em algum desses lugares encontraria o que desejava, já esteve ali várias vezes para realizar seus outros desejos, suas necessidades. Era o lugar perfeito para os mais diversos gostos, fetiches e prazeres. Encontrava-se de tudo e para todos, dos mais excêntricos e selvagens até os tímidos e acostumados com o papai e mamãe.
Era quase duas horas da madrugada e ele não vira quase nada que lhe chamasse a atenção. Estacionou o carro numa esquina escura, iluminada apenas por um neon de um bar caindo aos pedaços. Pensou que acabaria voltando para casa sem ter conseguido nada, frustrado. Logo naquela noite, em que ele preparara algo de tão especial! Um sentimento de depressão e decepção começava invadir seu ser. Sua testa começou a suar e suas mãos apertavam o volante do carro.
Abaixo do neon antigo a chuva caia numa vidraça partida, parando nas calhas entupidas e revelando um corpo em movimento. Salto alto rosa, meia calça com alguns rasgos que mostravam pernas grossas com estrias, o corpo grande fazia a roupa parecer mais curta a cada passada
O enorme corpo moreno se debruçou diante do carro, revelando um par de seios que gritavam para sair do aperto. Com um aperto num botão do painel do volante, ele abaixou o vidro da porta do passageiro para que pudesse ouvir melhor a oferta. A cada centímetro que o vidro descia, o interior do carro era invadido por um cheiro forte e adocicado de perfume barato. Com o vidro totalmente abaixado, a morena enfiou a cabeça para dentro, dando para ver que ela mascava um chiclete que já havia perdido a cor e muito provavelmente o gosto. Olhou o lindo e brilhoso painel de madeira nobre do carro, parando o olhar sobre ele, e disse:
- Então, bonitão. O que vai querer fazer hoje à noite?
Falando isso, ela passou a mão pelo decote revelando as negras aréolas dos seus enormes seios. Foi quando ele percebeu que aquela linda morena enorme nas proporções serviria aos seus desejos e anseios. Ele não respondeu, ela acompanhou os movimentos dele dentro do carro, suas mãos abriram um pequeno porta-treco retirando um maço de notas de grande valor. Balançou o dinheiro em direção ao rosto da morena e com a mão esquerda ele apertou um botão destravando a porta. Ouvindo o estalo da fechadura e impressionada com o volume do dinheiro diante de si, a morena abriu a porta e foi se ajeitando para dentro do carro.


- Por essa grana toda, libero totalmente a portinha de trás pro ocê sem camisinha – Disse toda empolgada a morena que ia abrindo o zíper dele, puxando para fora o grande volume do seu órgão sexual e colocando direto na sua boca.
Um sentimento de êxtase e ânimo foi liberado em seu corpo. Seu órgão latejava a cada chupada que ela lhe dava. Levou um tempo até ele se recompor e ligar o carro para seguir em frente com o seu plano.
O carro desapareceu mais adiante, a chuva encobria todo o seu rastro. E o que restou foi só a escuridão da madrugada que seria longa dali para frente.


- Bom dia, senhor! – Disse Rodrigo, que era o assistente do delegado.
Sem tempo para informalidades e paciência o delegado já rosnou.
- O que foi dessa vez?
Sem pestear o assistente disse:
- Mulher morena, por volta dos 35 anos.
- Prostituta?
- Aparentemente sim.
- Carro roubado?
- Sim. Roubado ontem por volta das 20:00 horas da noite de um advogado da zona sul, que se encontrava dentro de um motel de beira de estrada com sua secretária.
O delegado Guerra ouviu aquilo com desdenho e perguntou:
- Cadê o Victor?
O assistente apontou para o outro lado do carro onde se encontrava o legista forense, que tirava fotos da cena do crime sem parar. Quando ouviu o chamado do delegado, parou e deu a volta no carro em sua direção.
- Delegado Guerra.
- Qual é o poema da vez, Victor? – Perguntou Guerra.
Victor fez sinal para que esperasse um pouco, colocou a câmera de lado e puxou da bolsa a tiracolo um saco plástico de provas que continha um pedaço de papel. Vendo isso, o delegado fez sinal para que legista lesse o poema.Em voz alta ele começou:
Eu fiquei imóvel e no escuro tu vieste.
A chuva batia nas vidraças e escorria nas calhas - vinhas andando e eu não te via
Contudo a volúpia entrou em mim e ulcerou a treva nos meus olhos.
Eu estava imóvel - tu caminhavas para mim como um pinheiro erguido
E de repente, não sei, me vi acorrentado no descampado, no meio de insetos
E as formigas me passeavam pelo corpo úmido.
Do teu corpo balouçante saíam cobras que se eriçavam sobre o meu peito
E muito ao longe me parecia ouvir uivos de lobas.
E então a aragem começou a descer e me arrepiou os nervos
E os insetos se ocultavam nos meus ouvidos e zunzunavam sobre os meus lábios.
Eu queria me levantar porque grandes reses me lambiam o rosto
E cabras cheirando forte urinavam sobre as minhas pernas.
Uma angústia de morte começou a se apossar do meu ser
As formigas iam e vinham, os insetos procriavam e zumbiam do meu desespero
E eu comecei a sufocar sob a rês que me lambia.
Nesse momento as cobras apertaram o meu pescoço
E a chuva despejou sobre mim torrentes amargas.


Eu me levantei e comecei a chegar, me parecia vir de longe
E não havia mais vida na minha frente.
Ao terminar a narrativa, Victor esperou alguma resposta de Guerra, até que ele perguntou:
- Quem escreveu?
- Vinicius de Moraes. O poema chama-se “A Mulher na Noite”. – Respondeu Victor, entregando o saco plástico para o delegado olhar novamente.
Guerra leu novamente o ultimo verso do poema; “E não havia mais vida na minha frente.”. Victor adiantou-se e comentou ironicamente.
- Realmente... Vida é o que não sobrou dessa aí, não!
Guerra levantou a cabeça olhando diretamente para Victor, se perguntando mentalmente o porquê de todo legista possuir um humor mórbido, e disse:
- Victor, por favor, limite-se a comentar sobre os fatos do crime. Sem esboçar seu humor e piadinhas inúteis.
Guerra não gostava de como legistas e policiais podiam fazer piadinhas e comentários engraçadinhos diante de crimes absurdos e assustadores. Victor, encabulado pela chamada de atenção, foi direto ao carro e abriu a porta para mostrar o que havia acontecido. Sentido um cheiro extremamente forte, Guerra se adiantou e colocou a mascara junto com as luvas de plástico.
O que ele viu dentro daquele carro nunca mais sairia da sua mente. Nem os piores e ou melhores filmes de terror conseguiriam fazer aquilo, ou imaginava chegar perto de tanta repugnância. Os bancos do carro eram, a principio, de couro branco, mas não era o que se via. Espalhado por todo o interior do carro encontrava-se sangue coagulado e vísceras. O estomago da mulher estava em cima do painel do carro, aberto. Dava para ver o líquido ácido escorrendo pela madeira do painel junto com o que pareciam ser vestígios da última refeição daquela pobre alma. Decorando todo o interior do carro como cortinas vermelhas, via-se o intestino delgado pregado ao teto. Eram aproximadamente 6 metros de intestino pingando sangue.
A mulher encontrava-se no banco traseiro sentada, com a cabeça deitada para trás com os seus grandes globos oculares saltados para fora.
Guerra viu algo curioso no seu pescoço e perguntou para Victor o que era.
- Uma cobra, senhor!
- Hã? Indagou o delegado.
- A cobra é uma coral, provavelmente falsa, sem veneno. Ao que parece foi utilizada para enfocar a vítima.
Apontou Victor para o pescoço que demonstrava sinais de sufocamento.
Ouvir aquilo soou tão estranho para Guerra, que se perguntou onde aquele domingo iria parar. E o que mais poderia lhe impressionar.
- Santo Cristo! – Foi à única coisa que Guerra pode comentar sobre aquilo. Logo em seguida perguntou – E esse cheiro azedo e doce ao mesmo tempo? Sangue não cheira dessa forma.
- É cheiro de urina com açúcar. O que também explica as formigas e os insetos em volta. Foi o que atraíram elas.
O delegado pegou o poema e leu: “... E cabras cheirando forte urinavam sobre as minhas pernas. Uma angústia de morte começou a se apossar do meu ser
As formigas iam e vinham, os insetos procriavam e zumbiam do meu desespero...”.
- Urina de cabra?
- Não duvido muito senhor.
Guerra pediu para que Victor erguesse o vestido da mulher, já que não havia cortes nas roupas, o que mostrava que o assassino tirou a rouba antes de estripar a moça e que depois, a vestiu.
O legista pegou da sua maleta uma espécie de pinça metálica de uns 30 centímetros e ergueu o pano.
Os cortes de onde haviam sido retirados o intestino, o estômago e as vísceras da mulher encontravam-se costurados. Mas algo estava se mexendo por dentro da mulher. Foi quando o assistente do delegado que até então, apenas observava tudo de longe gritou apontado para as partes intimas da mulher.
- Senhor! Tem alguma coisa saindo da buceta dela! São...
Antes que Rodrigo dissesse o que via, delegado Guerra e o legista Victor gritaram saindo do carro rapidamente assustados.
- Cobras!
- São malditas cobras! - Berrou o delegado se afastando.
Com certa distância tomada por eles, ainda podiam ver o interior do carro. Havia um rasgo que ia da vagina até o ânus da mulher, da onde viam várias cobras de pequeno porte saindo das entranhas da morena, mal dava para distinguir que cobras eram, pois todas estavam ensanguentadas e com excrementos grudados pelos corpos que se esgueiravam para sair.
- PORRA! - Gritou o delegado dando um passo para trás e se agachando para vomitar todo o fraco café de manhã que tinha tomado às pressas daquele domingo que mal havia começado e, que estaria longe de terminar.
Muito longe.

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